Até por estar novamente em evidência na trilha sonora da novela A dona do pedaço (TV Globo), com gravação inédita da música Cheia de manias (Luiz Carlos, 1992), o grupo Raça Negra merece ter reavaliada a obra que legou na primeira metade dos anos 1990, década áurea do grupo paulistano.

    Quando despontou nacionalmente em 1991, oito anos após ter sido formado em 1983 na zona leste da cidade de São Paulo (SP), o Raça Negra dividiu instantaneamente público e críticos.

    De um lado, o público avalizou de imediato o samba do grupo. Samba cujo suingue também vinha dos teclados – numa espécie de desdobramento, 20 anos depois, do samba com o qual Benito Di Paula conquistou o Brasil na década de 1970 – e que logo foi erroneamente rotulado de “pagode”, nome também usado para designar a geração anterior que brotara no fundo do quintal carioca ao longo dos anos 1980.

    Do outro lado, os críticos imediatamente rejeitaram o “pagode” dos anos 1990 por detectar uma diluição do samba “de raiz” com alta dose de romantismo popular.

    É fato que a obra do Raça Negra nunca alcançou a coesão e acabamento do partido mais alto de Almir Guineto (1946 – 2017), Arlindo Cruz, Sombrinha e Zeca Pagodinho, para citar somente quatro bambas cariocas revelados nos anos 1980 nos pagodes armados na quadra do bloco carioca Cacique de Ramos.

    Ainda assim, é injusto negar o valor, na fase inicial do Raça Negra, do cancioneiro autoral de Luiz Carlos – vocalista e principal compositor do grupo – e Gabú, integrante posteriormente dissidente que também contribuiu como compositor para o sucesso dessa primeira fase do Raça Negra.

    Capa do single 'Cheia de manias', do grupo Raça Negra — Foto: Divulgação

    Basta ouvir a sacolejante Pensando em você (Luiz Carlos e Maia, 1992) e a apaixonada Cigana (Gabú, 1992) – duas músicas do segundo álbum do grupo, Raça Negra (1992) – para atestar o envolvente suingue romântico que embalava o “pagode” do Raça Negra em arranjos que equilibravam teclados e percussão, longe do chão dos terreiros, mas do perto do coração do povo brasileiro.

    Essa fase áurea inicial durou até meados dos anos 1990. Lançados entre 1991 e 1995, os seis primeiros álbuns do grupo – todos intitulados Raça Negra – legaram sucessos que estão na memória afetiva de quem viveu aquela década.

    É o caso de Cheia de manias, cuja gravação inédita – feita para a trilha da novela A dona do pedaço – já está disponível em single desde 31 de maio.

    Não é à toa que o sucesso fenomenal Raça Negra puxou toda uma onda de “pagode” na qual surfaram grupos como Só pra Contrariar e Exaltasamba. Essa geração foi marginalizada por não beber na fonte dos bambas pioneiros do samba, como Candeia (1935 – 1978), indo por outro caminho.

    Serenados os ânimos, é justo reconhecer o valor de parte do repertório inicial do Raça Negra, mesmo que o grupo tenha perdido o fôlego e o norte já no fim dos anos 1990. Até porque esse reconhecimento tardio jamais anula os méritos e louvores de pagodeiros mais comprometidos com as tradições melódicas, poéticas e rítmicas do samba.

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