O mercado de livros fechou o primeiro semestre de 2018 com alta tanto em faturamento (9,97% com relação ao mesmo período do ano anterior) quanto em volume de vendas (5,24%). No entanto, analistas do setor ouvidos pelo G1 consideram o crescimento discreto e avaliam que não há motivos para tanta comemoração.

    Primeiro, porque o patamar de vendas não era tido como elevado, então dificilmente cairia. Segundo, porque há grandes redes de livrarias em crise e inclusive sem condições de pagar por livros já entregues por editoras.

    Entre 1º de janeiro e 15 de julho, o setor arrecadou foi R$ 1,07 bilhão – contra R$ 977 milhões no ano passado. Já o número de exemplares vendidos cresceu de 22,96 milhões para 24,17 milhões.

    Esses números estão na edição mais recente do Painel das Vendas de Livros do Brasil, que saiu nesta quinta-feira (9).

    Apresentado mês a mês e desta vez com o balanço semestral, o estudo é feito pela Nielsen e divulgado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). A pesquisa baseia-se no resultado da Nielsen BookScan Brasil, que verifica as vendas em livrarias, supermercados e bancas.

    “Aparentemente, já tínhamos chegado ao fundo do poço. Então, não tivemos exatamente um crescimento agora, mas uma tímida retomada”, afirmou ao G1 Ismael Borges, que coordena a Nielsen Bookscan Brasil.

    “O mercado está tentando reaver os prejuízos que teve no decorrer dos últimos três anos. E o estado de espírito do mercado não permite comemorações.”

    Veja, abaixo, os principais fatores sobre o 1º semestre de 2018:

    • Após quatro anos seguidos de queda, o mercado de livros no Brasil enfim registrou resultado positivo em 2017. E abriu bem 2018: a alta no faturamento 14,05% em janeiro, 10,42% em fevereiro, 18,98% em março, 13,95% em abril e 11,78% em maio.
    • Em março, grandes redes livrarias informaram editoras que não tinham condições de pagar por livros já recebidos e fizeram proposta de renegociação, num indicativo de crise no setor. “Isso se agravou nos últimos dois meses, atingiu um nível que não dá mais para disfarçar”, diz Borges.
    • A greve dos caminhoneiros, entre 20 e 31 de maio, prejudicou o setor (tanto que o faturamento em junho caiu 2,92%). “Afetou muito naquelas duas semanas. O abastecimento ficou complicado, e mesmo o tráfego em shopping diminiu”, afirmou ao G1 o presidente do Snel, Marcos da Veiga Pereira.
    • A Copa do Mundo da Rússia, entre 14 de junho e 15 de julho, também fez as vendas de livros diminuírem (queda de 3,19% no faturamento). Mas é assim em toda Copa, explicou Pereira.
    • Com a crise e a alta do dólar, as editoras têm apostado bastante nos autores brasileiros, explica Borges. “Diversos estudos da Nielsen apontam que, ao mesmo tempo em que a literatura estrangeira cai, a literatura brasileira cresce.”
    • E, mais uma vez, não ocorreu um fenômeno editorial como os livros de colorir em 2015 ou um autor que tenha vendido muito até aqui neste ano.

    A crise das livrarias

    “O balanço do primeiro se,estre tem um dado positivo, que é o crescimento acima da inflação. É uma notícia boa”, avaliou o presidente do Snel, Marcos da Veiga Pereira.

    “Mas, por outro lado, vivemos um semestre difícil, porque as grandes livrarias acusaram o golpe do que foi a queda acumulada de 2015 e de 2016.”

    Pereira lembra que tudo “aconteceu em março, de uma maneira abrupta, meio de surpresa, com a notícia de que as livrarias iriam ter de postergar pagamentos”. “Nenhum editor estava preparado para isso. Estávamos em ritmo acelerado. Tivemos de puxar o freio.”

    De acordo com ele, um dos efeitos práticos imediatos disso foi a diminuição do número de lançamentos por parte das editoras.

    “Não adianta sair publicando se não tem certeza de que vai conseguir colocar os livros à venda. Precisa ter a confiança de que vai conseguir colocar os livros nas principais redes e de que vai receber o dinheiro. Essa relação de confiança entre editores e livreiros está sendo restabelecida aos poucos. E esse é o nosso desafio para o segundo semestre. Vamos ver o quanto a gente pode financiar efetivamente a cadeia de livrarias.”

    O presidente do sindicato dá uma explicação provável para o atual momento: “Acho que as livrarias conseguiam se financiar com bancos. Elas vinham num processo de reestruturação, de fechamento de lojas deficitárias, estavam fazendo o dever de csa. O problema é que a crise foi muito longa, e as livrarias tinham a expectativa de continuar se financiando no mercado financeiro, mas ele travou crédito”.

    A negociação, segundo ele, prevê que os pagamentos ocorram no final do ano, após o Natal e a black friday, “datas muito fortes”.

    E qual a previsão de solução, afinal? Para Pereira, o processo de recuperação “passa por decisões duras, demissão de gente, fechamento de lojas deficitárias”.

    “Mas é um processo de médio prazo. Eu diria que deve se arrastar pelo menos até o final de 2019, para voltarmos a uma situação de normalidade. E depende muito de como vai ser o ano que vem em termos macroeconômico.”

    Para Ismael Borges, a situação das livrarias não deve ter reflexos para o leitor. “Isso não quer dizer nada, porque livro à disposição teremos. Vai ser bem difícil assistir a uma crise de fornecimento engendrada pela própria indústria. O que acontece é que esse imbróglio entre as principais editoras os varejistas bagunça todo o sistema de distribuição. Então, o ecossistema está em fase de reanálise.”

    Veja, abaixo, os livros mais vendidos do 1º semestre:

    1. “A sutil arte de ligar f*da-se” (Intrínseca), de Mark Manson
    2. “As aventuras na netoland com Luccas Neto” (Ediouro), de Luccas Neto
    3. “Álbum da Copa – Rússia 2018” (Panini)
    4. “Vade Mecum” (Saraiva), vários
    5. “O milagre da manhã” (Best Seller), de Hal Elrod
    6. “Sapiens – Uma breve história da humanidade”(L&PM), de Yuval Noah Harari
    7. “O poder do hábito” (Objetiva), de Charles Duhigg
    8. “Propósito – A coragem de ser quem somos” (Sextante), de Sri Prem Baba
    9. “Seja foda!” (Buzz), de Caio Carneiro
    10. “O poder da ação: Faça sua vida ideal sair do papel” (Gente), de Paulo Vieira

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