Exposição em Paris reúne obras de arte famosas

    Quando a Fundação Louis Vuitton abriu as portas em Paris, em outubro do ano passado, seu majestoso prédio de aço e vidro, assinado pelo arquiteto americano Frank Gehry, imediatamente impôs sua força, ofuscando qualquer coleção que estivesse porta adentro. Ninguém se perguntou onde, afinal, estariam as famosas obras de arte do senhor Bernard Arnault, o grande mecenas da fundação e maior colecionador europeu de arte contemporânea.

    Lembro bem que poucos se atreveram a lançar essa indagação na visita ao prédio em avant-première, um grupo de menos de 500 pessoas convidadas para o desfile primavera-verão 2015 da grife Louis Vuitton, que inaugurou o espaço. O deslumbramento com a “embalagem” de Gehry, em formato de caravela espacial em pleno parque do Bois de Boulogne (ou, segundo as más-línguas, uma alcachofra cubista), era tamanho que ninguém prestou atenção a seu conteúdo – ou à falta dele.

    Ou talvez ninguém esperasse arte, aquela com “A” maiúsculo, de uma fundação que tem um imenso LV na entrada e que foi inaugurada com um desfile de moda. Tampouco ajudaram a dissipar essa impressão os quatro shows, em março passado, do midiático cantor Kanye West, marido da realitybombshell Kim Kardashian, uma apresentação desprovida de qualquer cunho musical relevante.

    Mas os meses de vazio artístico acabam de ficar para trás com a abertura da exposição Les clés d’une passion (As chaves de uma paixão), em cartaz até o dia 6 de julho na fundação. Ela reúne nada menos do que 60 obras-primas de grandes mestres das artes plásticas do último século, de Monet (Ninfeias azuis, 1916-1919) a Picasso (A leitura, 1932), passando por Francis Picabia (Retrato de um casal, 1942-1943), Fernand Léger (Três mulheres – O grande almoço, 1921), Mark Rothko (No. 46, 1957) e Alberto Giacometti (O homem que anda, 1961). Como artistas de vertentes tão diferentes dialogam entre si para manter a mostra minimamente coerente? A diretora artística da fundação, Suzanne Pagé, que comandou no passado o renascimento do Museu de Arte Moderna de Paris, dividiu a paixão de seu chefe-colecionador em quatro chaves: expressionismo subjetivo, linha contemplativa, pop e música. “Elas refletem os quatro pilares que norteiam a formação da nossa própria coleção contemporânea”, diz Pagé. E a coleção de Bernard Arnault, que inclui obras de Gerhard Richter, Thomas Schütte e Sigmar Polke, quando será exibida? “Optamos por desvendar nossa coleção aos poucos. Primeiro, dando a chance de as pessoas admirarem o prédio de Gehry, depois com uma mostra de Olafur Eliasson em janeiro. Aos poucos vamos revelar o restante.”

    Todo colecionador bilionário com dinheiro em caixa pode se presentear com obras-primas, mas qual realmente pode se dar ao luxo de receber 60 delas emprestadas? O que mais impressiona na exposição é saber que todas as obras foram consignadas por alguns dos museus mais importantes do mundo, como o MoMa e o Guggenheim de Nova York, o Hermitage de São Petersburgo, o MOCA de Los Angeles e o D’Orsay de Paris. Entre os quadros, a estrela absoluta é O grito (1910), de Edvard Munch, que o museu do artista, em Oslo, decidira não mais emprestar desde que ele foi roubado em 2004 do Albertina de Viena, para ser recuperado dois anos depois. Ou ainda A dança (1909-1910), de Matisse, que raramente sai do Museu Hermitage de São Petersburgo.

    É um feito raro para uma fundação recém-nascida conseguir empréstimos desse porte, mas a explicação reside no fato de o grupo LVMH – maior holding de luxo do mundo que tem no bilionário Bernard Arnault seu acionista majoritário – ser um dos principais patrocinadores de exposições de arte nesses museus nas últimas duas décadas. O MoMA de Nova York, por exemplo, emprestou cinco obras em agradecimento ao patrocínio dado em 2007 à retrospectiva de Richard Serra; as Ninfeias de Monet saíram do Museu d’Orsay porque, dois anos atrás, o grupo patrocinou uma exposição sobre as relações do impressionismo com a moda.

    As chaves de uma paixão entrou em cartaz num momento virtuoso e, ao mesmo tempo, delicado para o mercado das artes plásticas, que movimentou cerca de R$ 149 bilhões em 2013 contra R$ 57 bilhões de uma década atrás. No mundo dos colecionadores de artigos de luxo, a arte já ultrapassou os investimentos em joias, móveis antigos, vinhos raros e moedas, com um crescimento espetacular impulsionado pelos mercados emergentes – 15% em 2014 e 252% nos últimos dez anos, só superado por carros antigos, que cresceram 487%. Tamanho frenesi não se justifica apenas pelo interesse artístico; a arte é um investimento de fácil portabilidade, transacionado por marchands que protegem a identidade de seus clientes e que, muitas vezes, são donos de depósitos instalados em zonas francas de países como Suíça, Cingapura e os Emirados Árabes, onde não se fala em declaração de renda ou impostos. Muitas dessas obras jamais chegam às casas de seus compradores. A grande discussão do setor gira agora em torno da necessidade de maior regulamentação e fiscalização do mercado, para inibir o uso da arte como instrumento poderoso de lavagem de dinheiro, como visto nos recentes casos de apreensão de obras na Operação Lava Jato, aqui no Brasil.

    Em fevereiro, o mercado ficou em polvorosa com a prisão de um dos principais e mais respeitados marchands do mundo, o francês Yves Bouvier. Ele foi denunciado por seu maior cliente, o magnata russo Dmitry Rybolovlev, dono do clube de futebol AS Mônaco, que comprou de suas mãos, nos últimos dez anos, um acervo estimado em R$ 6 bilhões que inclui obras de Leonardo da Vinci e Toulouse-Lautrec. Rybolovlev acusou Bouvier de lhe vender um quadro do italiano Amedeo Modigliani por R$ 342 milhões, quando o preço real era R$ 269 milhões. Para se vingar do sobrepreço cobrado pelo marchand, o russo denunciou-o às autoridades monegascas por lavagem de dinheiro. Bouvier pagou uma fiança de R$ 30 milhões para sair da cadeia e briga hoje na Justiça com o ex-cliente. O tiro acabou saindo pela culatra: as autoridades querem agora rastrear o caminho dos valores pagos via trustes e fundos localizados em paraísos fiscais. Toda paixão tem um preço; resta saber quanto se quer pagar – em impostos – por ela.

    Fonte: ÉPOCA

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