É quase inacreditável que um artista com a dimensão alcançada por Getúlio Côrtes como compositor, inclusive após a destruição do reino encantado da Jovem Guarda, esteja lançando o primeiro álbum somente aos 80 anos, completados em 22 de março deste ano de 2018. Mas o fato é que, se André Paixão e Marcelo Fróes não tivessem idealizado este álbum, o cantor e compositor carioca corria o risco de sair de cena sem ter feito um disco em que registra, com a própria voz, os principais títulos de cancioneiro criado desde 1962.

    Lançado em edição digital e em CD (com texto do jornalista Fernando Rosa no encarte), o tardio álbum As histórias de Getúlio Côrtes (Superstudio / Discobertas) chega a tempo de fazer jus à história e à obra do compositor de Negro gato (1965). Uma das 13 músicas de Getúlio que entre 1965 e 1976 ganharam a voz de Roberto Carlos, rei da juventude nas tardes dominicais da segunda metade década de 1960, Negro gato integra obviamente o repertório do disco ao lado de outras nove músicas deste compositor que bebeu da fonte do rock.

    É na batida do rock que Getúlio Côrtes dá mais uma vida ao Negro gato com voz que exala vigor, jovialidade e energia, na contramão do que se espera de um cantor e compositor que entrou em estúdio já perto de completar 80 anos. Gravado com respeito e reverência à personalidade roqueira do artista, o álbum As histórias de Getúlio Côrtes se safa do perigo de soar modernoso.

    Capa do álbum 'As histórias de Getúlio Côrtes' (Foto: Divulgação)
    Capa do álbum ‘As histórias de Getúlio Côrtes’ (Foto: Divulgação)

    O fantástico quarteto formado para tocar no disco e orquestrar os arranjos das 10 músicas – André Paixão (piano elétrico, órgão, violão e percussão), Gustavo Benjão (percussão, guitarra, violão e teclados), Marcelo Callado (bateria) e Melvin Ribeiro (baixo) – resistiu à tentação de atualizar o cancioneiro de Getúlio Côrtes. Há, sim, oportuno toque contemporâneo na arquitetura das dez faixas, mas posto na medida certa, sem nunca descaracterizar a obra e – mais importante – sem tirar as músicas do universo particular em que foram compostas e gravadas.

    Em Eu preciso ser feliz (1970), o órgão de André Paixão evoca o som da Jovem Guarda. A propósito, basta ouvir Eu só tenho um caminho (1971) – exemplo do suingue black que pauta o cancioneiro do compositor em músicas como a obscura Hei você (Getúlio Côrtes e Nelsinho do Balanço, 1971) – para identificar o jovial universo musical das tardes dos anos 1960, embora algumas das melhores músicas de Getúlio Côrtes tenham sido gravadas por Roberto Carlos após o fim da Jovem Guarda. É o caso de Atitudes (1973), música que encerra o disco com levadas contemporâneas sem perda da… atitude recorrente na obra do compositor.

    Positivista, o cancioneiro de Getúlio Côrtes evita o chororô, mesmo quando expia dor de amor. Há disposição para recomeçar nas letras de Quase fui lhe procurar (1968) – canção adoçada com dispensável coro – e O tempo vai apagar (Getúlio Côrtes e Paulo César Barros, 1968), balada revivida no disco pelo autor com pegada roqueira que dilui o tom lacrimoso da gravação impagável de Roberto Carlos.

    Getúlio Côrtes e a banda do disco (Foto: Divulgação / Markão Oliveira)
    Getúlio Côrtes e a banda do disco (Foto: Divulgação / Markão Oliveira)

    Embora a seleção de repertório priorize com razão os maiores sucessos do compositor, até pelo caráter documental deste que será provavelmente o único álbum de Getúlio Côrtes, há músicas menos conhecidas da obra do artista. O imperativo rock Ponha no lugar (1969), gravado somente pelos efêmeros cantores Pedro Paulo e Sérgio Márcio no mesmo ano de 1969, é boa surpresa dessa seleção ao lado da já mencionada Hei você (1971) e de Cada um dá o que tem (1973), música gravada pelo cantor pernambucano Reginaldo Rossi (1944 – 2013), uma das vozes populares que, nos anos 1970, herdaram o repertório de compositores da então já desfeita Jovem Guarda.

    Com bem dosado mix de contemporaneidade e tradição, o álbum As histórias de Getúlio Côrtes perpetua músicas como Por motivo de força maior (1976) na voz do dono dessas músicas. Somente por isso já faz história. Mas a história se faz também pela energia do cantor – cuja voz foi ouvida originalmente na década de 1960 no grupo vocal The Wonderful Boys – e pelo toque de uma banda que se pôs a serviço do Negro Gato, sem a vaidade de querer aparecer mais do que o artista ou do que a própria obra do compositor, raro negro na história do rock brasileiro. (Cotação: * * * *)