Há 25 anos, Paulinho Moska debutava na carreira solo com álbum de pegada roqueira, Vontade (1993). De lá para cá, o cantor, compositor e músico carioca se expandiu pelo universo pop, abriu parcerias, fez conexões com colegas do Mercosul – a ponto de ter gravado álbum com o roqueiro argentino Fito Paez, Locura total (2015) – e nunca parou de sobressair na geração projetada na década de 1990.

    Embora esteja em cena desde os anos 1980, como integrante dos grupos Garganta Profunda e Inimigos do Rei, Moska é da turma geracional de Chico César, Lenine e Zeca Baleiro. Este, não por acaso, é parceiro do artista em Pela milésima vez, uma das dez músicas inéditas que compõem o repertório autoral do álbum Beleza e medo (Deck), 11º título da discografia solo de Moska.

    O título e o refrão de Pela milésima vez aludem ao samba Pela décima vez (1935), do bamba Noel Rosa (1910 – 1937), mas Moska se situa distante do terreiro do samba nesse disco formatado com guitarras, teclados e baterias, além do toque do violão do artista.

    Capa do álbum 'Beleza e medo', de Moska (Foto: Flora Negri)
    Capa do álbum ‘Beleza e medo’, de Moska (Foto: Flora Negri)

    Lançado neste mês de agosto de 2018, o álbum Beleza e medo remete ao seminal Vontade pela batida pop roqueira entranhada em músicas como Bem na mira, Mega hit – uma das três composições feitas por Moska em parceria com o letrista Carlos Rennó – e a power balada O jeito é não ficar só (um dos destaques do repertório). Mas cessa aí qualquer ponto de interseção entre o bom disco de 1993 e o atual álbum produzido por Liminha sob direção artística do próprio Moska.

    Se o melodista foi se refinando, como comprova a aliciante balada Minha lágrima salta entre ecos de canções de Roberto Carlos e do discípulo Nando Reis, o compositor também veio crescendo e aparecendo como letrista de maior peso poético. A ponto de o legítimo discurso político da letra-manifesto de Nenhum direito a menos, escrito pelo parceiro Carlos Rennó, soar óbvio e até pueril (embora sempre justo) no confronto com a poética menos previsível das letras de Moska e de outra letra escrita pelo próprio Rennó, a de Em você eu vi, para este disco em que a pulsão dos versos soa mais forte do que a fluência das melodias.

    Moska (Foto: Divulgação / Flora Negri)
    Moska (Foto: Divulgação / Flora Negri)

    O álbum já surpreende na abertura ao cair no suingue funky de Que beleza, a beleza, composição que remete ao balanço black de soulmen brasileiros como Hyldon e Tim Maia (1942 – 1998). Nessa composição, Moska viaja no conceito de beleza enquanto em Medo do medo – parceria com Zélia Duncan – o assunto é obviamente o medo, como já explicita o título da música gravada na cadência do reggae.

    Canção de amor, Meu nome é saudade de você é apresentada com os beats desacelerados, se conectando com a já mencionada balada Minha lágrima salta, obra-prima de álbum em que Moska vislumbra belezas na poesia do rock. (Cotação: * * * 1/2)